"Um pequeno e quase imperceptível incidente ocorrido recentemente com o Representante Comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, durante entrevista coletiva em Brasília, refletiu um antigo símbolo de nossa cultura com raízes nos primórdios educacionais do país."

Lenilson Fereira
Professor da Escola Superior Candido Mendes
Mestrando em Ciências Pedagógicas do Instituto Superior de Estudos Pedagógicos (ISEP)

 
ARTIGO

Um membro do Itamaraty apresentou Zoellick aos presentes como Dr Zoellick e, na primeira intervenção de um jornalista local que se utilizou daquele tratamento, o representante do governo de Washington corrigiu-o. “Ainda não tenho o título de doutor,” disse Zoelick.

No diálogo entre o brasileiro e o norte-americano, dois traços distintos de tradições culturais díspares entrechocaram-se. O tratamento dispensado a Zoellick evidenciou algo a que acostumamo-nos e, portanto, não se constitui objeto de estranheza para nós, ao contrário dos estrangeiros. O representante do governo norte-americano não teria feito sua pertinente observação caso se desse a conhecer a história brasileira, desconhecimento que, de resto, é sabidamente comum entre seus conterrâneos.

A tradição de chamarmos alguns entre nós de Doutor, à exceção natural dos médicos, remonta ao Brasil Colônia. O Mito do Doutor estruturou-se no país após o Mito do Padre. O Mito do Doutor nasce da necessidade de as famílias ricas terem em seu meio um advogado, além de um padre e um político. A educação era, naturalmente, o instrumento de acesso àqueles postos e só os ricos a ela tinham acesso na qualidade necessária. Ao padre não cabia ou não era necessário o título de Doutor porque lhe bastariam as credenciais divinas que o diferenciavam entre os demais membros da sociedade. O advogado é o conhecedor das leis e, portanto, detentor de certo poder de liberdade ou prisão. Ele assenhorava-se deste conhecimento através da educação diferenciada da exígua educação dada ao povo, principalmente após o Marquês de Pombal ter expulsado os Jesuítas educadores. Àquela educação diferenciada só os ricos tinham acesso e, logo, a diacronia de nossa história transformou o termo em sinônimo de posição superior na escala social. O excluído social acostumou-se a usar o tratamento como reconhecimento da superioridade social, circunstancial ou permanente, daquele frente a quem está. Isto é patente na famosa expressão “Doutor Delegado.”

Na história mundial, o título de Doutor é freqüentemente concedido a figuras exponenciais. Roger Bacon, monge inglês do século XII, foi cognominado de Doutor Admirável devido a seus conhecimentos de ciência e filosofia. Santo Tomás de Aquino foi o Doutor Angélico. A Igreja de Roma confere o título canônico de Doutores da Igreja aos santos e, na religião judaica, o rabino é o Doutor da Lei.

O Mito do Doutor é um do potente elemento da mitologia sobre a qual se funda o Povo Brasileiro, bem o percebeu Marilena Chauí. O que a autora chama de “cultura senhorial” desenvolveu em nossa sociedade, segundo ela, um “fascínio pelos signos de prestígio e de poder, como se depreende do uso de títulos honoríficos sem qualquer relação com a possível pertinência de sua atribuição,” evidenciado pelo nosso grifo. (Brasil – Mito Fundador e Sociedade Autoritária, 2000).

O Doutor, para o senso brasileiro comum, é aquele que está acima, que sabe mais, que pode mais ou que, freqüentemente, apenas tem mais. Ser Doutor é ser conhecedor, é ser douto, aquele que “aprendeu muito, que é muito instruído,” segundo o Aurélio. O tratamento, na forma em que é usado, reduz a educação ao poder econômico. A vesga leitura capitalista do mundo mais uma vez limita algo maior segundo sua estrita ótica econômica. Os que não conhecem, que não sabem ou não têm delimitam os limites de seu território social do mundo dos doutores com o uso da expressão. É um autêntico termo de vassalagem, de marca incontestável de submissão, de inferioridade social. Quem o usa se auto-exclui daquele mundo do qual a quem ele se dirige torna-se um símbolo.

Ainda não vingou entre nós o uso oral da forma dicionarística que nos dá conta de que o Doutor, do Latim doctore, é “aquele que se formou numa universidade e recebeu a mais alta graduação desta após haver defendido tese em determinada disciplina literária, artística ou científica,” segundo nos orienta Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

A medida em que nossa sociedade alcançar maiores padrões educacionais, o Mito do Doutor poderá ser enfraquecido quando atingirmos uma conscientização que modificará nosso modo de atuar, como ensinou Paulo Freire. A pessoa consciente verá o significado real das coisas e buscará transformá-las.

Chauí define o título de Doutor como um “substituto imaginário a antigos títulos de nobreza.” Talvez esta definição, ironicamente, torne apropriado o seu uso quando o membro do Itamaraty dirigiu-se ao representante de Washington e, inconscientemente, demarcou posições de comando e de obediência. Tal como nos não tão antigos tempos em que não passávamos de uma colônia e vivíamos a olhar para a metrópole.

 

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