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Um membro do Itamaraty apresentou Zoellick
aos presentes como Dr Zoellick e, na
primeira intervenção de
um jornalista local que se utilizou
daquele tratamento, o representante
do governo de Washington corrigiu-o.
Ainda não tenho o título
de doutor, disse Zoelick.
No diálogo entre o brasileiro
e o norte-americano, dois traços
distintos de tradições
culturais díspares entrechocaram-se.
O tratamento dispensado a Zoellick evidenciou
algo a que acostumamo-nos e, portanto,
não se constitui objeto de estranheza
para nós, ao contrário
dos estrangeiros. O representante do
governo norte-americano não teria
feito sua pertinente observação
caso se desse a conhecer a história
brasileira, desconhecimento que, de
resto, é sabidamente comum entre
seus conterrâneos.
A tradição de chamarmos
alguns entre nós de Doutor, à
exceção natural dos médicos,
remonta ao Brasil Colônia. O Mito
do Doutor estruturou-se no país
após o Mito do Padre. O Mito
do Doutor nasce da necessidade de as
famílias ricas terem em seu meio
um advogado, além de um padre
e um político. A educação
era, naturalmente, o instrumento de
acesso àqueles postos e só
os ricos a ela tinham acesso na qualidade
necessária. Ao padre não
cabia ou não era necessário
o título de Doutor porque lhe
bastariam as credenciais divinas que
o diferenciavam entre os demais membros
da sociedade. O advogado é o
conhecedor das leis e, portanto, detentor
de certo poder de liberdade ou prisão.
Ele assenhorava-se deste conhecimento
através da educação
diferenciada da exígua educação
dada ao povo, principalmente após
o Marquês de Pombal ter expulsado
os Jesuítas educadores. Àquela
educação diferenciada
só os ricos tinham acesso e,
logo, a diacronia de nossa história
transformou o termo em sinônimo
de posição superior na
escala social. O excluído social
acostumou-se a usar o tratamento como
reconhecimento da superioridade social,
circunstancial ou permanente, daquele
frente a quem está. Isto é
patente na famosa expressão Doutor
Delegado.
Na história mundial, o título
de Doutor é freqüentemente
concedido a figuras exponenciais. Roger
Bacon, monge inglês do século
XII, foi cognominado de Doutor Admirável
devido a seus conhecimentos de ciência
e filosofia. Santo Tomás de Aquino
foi o Doutor Angélico. A Igreja
de Roma confere o título canônico
de Doutores da Igreja aos santos e,
na religião judaica, o rabino
é o Doutor da Lei.
O Mito do Doutor é um do potente
elemento da mitologia sobre a qual se
funda o Povo Brasileiro, bem o percebeu
Marilena Chauí. O que a autora
chama de cultura senhorial
desenvolveu em nossa sociedade, segundo
ela, um fascínio pelos
signos de prestígio e de poder,
como se depreende do uso de títulos
honoríficos sem qualquer relação
com a possível pertinência
de sua atribuição,
evidenciado pelo nosso grifo. (Brasil
Mito Fundador e Sociedade Autoritária,
2000).
O Doutor, para o senso brasileiro comum,
é aquele que está acima,
que sabe mais, que pode mais ou que,
freqüentemente, apenas tem mais.
Ser Doutor é ser conhecedor,
é ser douto, aquele que aprendeu
muito, que é muito instruído,
segundo o Aurélio. O tratamento,
na forma em que é usado, reduz
a educação ao poder econômico.
A vesga leitura capitalista do mundo
mais uma vez limita algo maior segundo
sua estrita ótica econômica.
Os que não conhecem, que não
sabem ou não têm delimitam
os limites de seu território
social do mundo dos doutores com o uso
da expressão. É um autêntico
termo de vassalagem, de marca incontestável
de submissão, de inferioridade
social. Quem o usa se auto-exclui daquele
mundo do qual a quem ele se dirige torna-se
um símbolo.
Ainda não vingou entre nós
o uso oral da forma dicionarística
que nos dá conta de que o Doutor,
do Latim doctore, é aquele
que se formou numa universidade e recebeu
a mais alta graduação
desta após haver defendido tese
em determinada disciplina literária,
artística ou científica,
segundo nos orienta Aurélio Buarque
de Holanda Ferreira.
A medida em que nossa sociedade alcançar
maiores padrões educacionais,
o Mito do Doutor poderá ser enfraquecido
quando atingirmos uma conscientização
que modificará nosso modo de
atuar, como ensinou Paulo Freire. A
pessoa consciente verá o significado
real das coisas e buscará transformá-las.
Chauí define o título
de Doutor como um substituto imaginário
a antigos títulos de nobreza.
Talvez esta definição,
ironicamente, torne apropriado o seu
uso quando o membro do Itamaraty dirigiu-se
ao representante de Washington e, inconscientemente,
demarcou posições de comando
e de obediência. Tal como nos
não tão antigos tempos
em que não passávamos
de uma colônia e vivíamos
a olhar para a metrópole.
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