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Consideremos sobre a forma na qual
nos apoiamos para reter ou lembrar as
impressões que vamos colhendo
pelo caminho. Não é suficiente
colher e guardar os fatos que vemos
nos nossos cotidianos, no nos so País,
na nossa história cronologicamente
determinada. É a memória
vivida, reconstruída através
dos nossos sentidos e dos sentidos dos
que contemporaneamente nos cercam que
constrói a nossa teia de conhecimento.
A memória permite a relação
do presente com o passado. Quanto mais
pessoal, menos socializada for a memória,
mais distante e de difícil acesso
será a sua atualização
pela consciência. E o instrumento
mais socializador da memória
é a linguagem. Através
da linguagem, nos identificamos de ntro
da sociedade em que vivemos. Usando
símbolos e meios pelos quais
estes símbolos são transmitidos
relacionamo-nos com o outro e nos transformamos,
modificando conseqüentemente a
sociedade em que vivemos. Maurice Halbwachs,
em 'Memória Coletiva', nos coloca
isto de forma bem clara: 'Percebemos
cada meio à luz do outro. As
lembranças mais difíceis
de evocar são aquelas que não
pertencem senão a nós'.
E sucessivamente, assim como em uma
rede de transmissão de dados
e conhecimentos, aconteciment os e depoimentos
vão tomando uma forma e ocupando
um lugar na nossa memória pessoal
e na memória da nação.
Em um país tão grande
como o nosso, o modo como se organiza
nossa percepção de espaço
e tempo é influenciado diretamente
pela Mídia. Isto para não
falarmos em globalização
e mídia globalizada. Concentremo-nos
em nós desta vez. Na nossa mídia
nacional. Juntas, a vida vivida e a
vida através da 'telinha' vão
recortando nossa sociedade e gerando
novas gírias, costumes, valores.
Um gesto circ ular vira sinônimo
de cerveja. Ou pode ser a 'Número
1'. Transitamos entre o delineador de
'Jade', o cabelo de Fátima Bernardes,
o estilo de Marília Gabriela.
Desejamos ser como Vera, sempre bela.
Quem se lembra das 'Casas Pernambucanas'
com o 'Não adianta bater, eu
não deixo você entrar??
Ou dos Porquinhos da casa da Banha dançando
o 'Tchá-tchá-tchá'??
Foram-se as empresas, morreram as marcas,
mas ficaram as lembranças na
geração que viveu esta
época. Leila Diniz e Elis...
Quantas lembranças, quantas memórias
podemos associar a elas ?
2002. Vivemos durante 62 dias a vida
privada de doze pessoas através
do Big Brother Brasil. A nação
se comoveu, riu, reclamou, chorou, votou.
Tornou os participantes íntimos
de suas casas, de suas discus sões
no trabalho. Recordes de audiência
foram batidos na final. Isentemo-nos
das críticas por alguns momentos.
Quase todos queriam saber quem seria
o(a) escolhido(a) do nosso Brasil. É
fato. E enquanto comentávamos
ou criticávamos, fomos tecendo
nos sa memória. Alguns continuarão
na mídia, que opera milagres
diariamente. Outros cairão na
parte da memória esquecida. 'Faz
parte'. Como também faz parte
da cultura do nosso país aprender
por meio da Mídia, transformar-se
por intermedio dela. A Mídi a,
hoje livre, denuncia e derruba ministros,
candidatos, presidente. Digamos que
em nosso país a Mídia
não mais se limita a ser apenas
um meio que transmite a vida gravada
ou 'ao vivo e a cores'. Ela vai muito
além. 'Sabemos que a mídia
não transporta a memória
pública inocentemente; ela a
condiciona na sua própria estrutura
e forma', diz Andreas Huyssen, em 'Seduzidos
pela Memória'. Portanto Mídia,
seja ela qual for, nos faça comprar,
desejar, rir, chorar, comentar, distrair,
mas principa lmente, também nos
ajude a pensar. Pensar novos caminhos
sociais mais equilibrados e mais justos.
Seduza-nos com xampus suaves e ofertas
imperdíveis, mas mostre-nos também
como podemos juntos ir transformando
nossa sociedade em lugar melhor de se
viver, não para tão poucos,
mas para muitos mais. Ajude-nos a tecer
passado e presente neste Brasil de transformações
constantes, que mesmo tão grandes,
estão longe de refletir o nosso
tamanho.
'A gente se vê por aqui'.
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