"Um dos princípios do branding ou construção de MARCA é a criação de consciência da existência e importância de algo. Construção, do latim constructione, significa dar estrutura, edificar. Toda MARCA necessita de um símbolo que a represente visualmente. Que transmita através das cores e do design algo sobre a personalidade e benefícios do produto. Nós humanos aprendemos por cognição, percepção e repetição (aquisição de conhecimento, maneira pela qual processamos as informações através dos nossos sentidos e exposição repetida). Assim, para acreditar em uma MARCA, percebê-la como familiar, de confiança, é preciso, entre outros fatores, estar exposto a ela muitas vezes, experimentá-la, ouvir falar dela, ver seu símbolo (logo) tanto e a tal ponto que MARCA e o produto se confundem. Fazer a barba com lâmina de barbear é muitas vezes usar 'Gilete', tomar banho em piscina de hidromassagem é mergulhar em uma 'Jacuzzi'. Isto vale também para as cidades. Corcovado e Rio se confundem Eiffel e Paris; Big Ben e Londres; cangurus e Austrália; futebol e BRASIL."

Maria Cecilia Trannin
Consultora da Quadri Comunicação + Design
Professora de Marketing da Escola Superior Candido Mendes

 
ARTIGO

Quem já foi aos Estados Unidos ou assiste a filmes americanos com certeza já percebeu o número de bandeiras americanas em toda parte. O nacionalismo americano se este nde pelo país e se expressa pelo número de bandeiras nas casas, nas ruas, nas roupas, nas cafeterias, nos postos de gasolina, no dia-a-dia. O símbolo do país está em todas as partes. O orgulho pela pátria põe as bandeiras para fora, a exposição à 'MARCA' gera mais orgulho e mais força para a pátria. Faz o branding. Técnica que pode ser usada para o bem e para o mal, a construção da MARCA com certeza pode ajudar a dar estrutura a um país.

Mas países não são homogêneos, especialmente os gigantes geograficamente. As diferenças sociais, culturais, regionais e até mesmo raciais permeiam as relações entre os cidadãos de um país. Até hoje, no sul dos Estados Unidos, existem salões de beleza para brancos e salões para negros. Igrejas para brancos e igrejas p ara negros. O preconceito pode não carregar mais as famigeradas plaquinhas 'For whites only' (somente para brancos) vistas outrora na África do Sul, mas está nos olhares, nas ruas, nas vozes, descaradamente explícito.

Em uma determinada rua perto da ca pital do Mississippi (Jackson), um lado da rua têm lojas e serviços atendendo aos brancos, o outro lado, aos negros. Bairros inteiros fazem a sua própria seleção discriminatória. Agentes imobiliários reconhecem a cor de quem telefona pelo sotaque e, de acordo com a segmentação do bairro, informam que não há nada disponível ou que determinado imóvel já tem compradores em fase final.

Em uma determinada festa anual chamada 'hats off', são oferecidas homenagens a cem mulheres negras que fizeram a diferenç a com trabalhos comunitários socialmente responsáveis. Ser uma de duas convidadas brancas nesta festa, por exemplo, foi para mim motivo de muito orgulho. Ninguém falava comigo, mas os olhares diziam 'Esta deve ser uma branca diferente se está aqui conosco'.

Fato é que só um símbolo está em toda parte e pertence ao povo na sua essência, a bandeira americana. A bandeira é de todos ainda que de diferentes formas. Indo além do símbolo, podemos observar que a força motriz do patriotismo representada pela b andeira, só conhece dois caminhos pelos quais os preconceitos raciais, discrepâncias sociais e divergências políticas conseguem verdadeiramente destruir barreiras e romper fronteiras visíveis e invisíveis. São eles a arte e o esporte. Michael Jordan, Charlie Parker, Steve Wonder, Denzel Washington, Tina Turner e Whoopie conseguem verdadeiramente transpor os inúmeros vazios e espaços que se formaram entre as raças ao longo dos anos, agradar e pertencer a todos.

É tempo de Copa do Mundo. Nossa terra Bra sil se vestiu de verde e amarelo, a princípio timidamente. A cada dia, mais bandeiras foram enchendo as ruas, os carros, as esquinas. Na esperança do Penta, na força do esporte, os brasileiros foram chegando perto, participando, reclamando, xingando, gritando, acordando de madrugada, se unindo como uma nação.

Voltemos ao branding. Formar consciência de uma nação é como edificar e consolidar uma MARCA. Segundo Jonh Kania e Adrian Slywotzky, autoridades mundiais em estratégia da empresa Mercer Managemen t Consulting em Boston, 'quando os clientes têm baixa percepção da MARCA ou não confiam na MARCA como representante de qualidade, eles migram para outras. É preciso gerar um elo emocional com a MARCA'.

A Nike conseguiu explorar a experiência de MARCA porque seus clientes-alvo iniciais - atletas profissionais - eram apaixonados por seus esportes. Harley Davidson, depois de beirar a falência, construiu o seu branding sobre um estilo de vida, exalando liberdade e aventura. Não somos mais 90 milhões em aç ão, mas 170 milhões na expectativa. Expectativa de um novo governo, incerteza sobre o porvir, esperança. Não podemos migrar para outras marcas, podemos até individualmente emigrar, mas esta não é a solução. Não vivemos a era do 'Ame-o ou deixe-o'. Assim, penso que com a Taça na mão, devemos deixar as bandeiras de fora. Construir a nossa MARCA, reforçar o nosso amor por esta pátria. De verde e amarelo, branding a MARCA BRASIL.

 

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