|
Como você vê a resistência
destas redes locais para driblar os
grandes varejistas que atuam no país
inteiro?
Eu não diria resistência,
diria que estas empresas apresentam
características peculiares e
que desenvolvem com extrema competência,
tornando difícil para qualquer
concorrente penetrar em sua área.
Uma das principais características,
sem dúvida nenhuma, é
o foco de atuação. Agindo
de maneira objetiva, essas empresas
conseguem exercitar com agilidade e
empregando enorme qualidade, funções
e atividades relevantes para os seus
clientes, aumentando deste modo, a satisfação
dos mesmos. Clientes satisfeitos são
clientes leais.
Uma outra característica que
merece ser apontada, é a atuação
destas redes locais em municípios
e regiões onde as grandes cadeiras
varejistas não possuem penetração,
simplesmente, por não ser 'relevante'
para as mesmas. Neste cenário,
as redes locais sobrevivem e muito bem.
Sem concorrentes diretos.
Outro fator bastante ponderável,
é o incremento gradativo que
presenciamos nos últimos anos
em torno das relações
dos fornecedores-fabricantes com essas
cadeias de lojas regionais. Apesar do
que podemos supor, os fornecedores não
desejam concentrar grande parcela das
suas vendas nas mãos de poucos,
pois deste modo, tornam-se altamente
dependentes dos mesmos. O futuro deles
dependerá do 'humor' das grandes
cadeias varejistas. Neste sentido, os
fornecedores vêm distribuindo
parcelas significativas de suas vendas
para cadeias regionais, grandes cadeias
varejistas e distribuidores e outros
canais (internet, lojas de conveniência,
etc.)
Enfim, com alguns desses fatores citados
bem como atuando de maneira a buscar
a constante satisfação
dos seus clientes, oferecendo serviços
cativantes (financiamentos viáveis,
entregas, etc.) e possuindo abrangente
relevância em regiões onde
as grandes cadeias varejistas não
possuem presença, as redes locais
mostram-se como grandes concorrentes
para serem driblados.
Elas têm futuro num mercado
cada vez mais concentrado?
Sem dúvida nenhuma. Em geral,
na medida em que uma organização
se desenvolve e aumenta suas operações,
normalmente, torna-se maior a distância
formada entre os clientes e os diversos
níveis decisórios da organização.
Neste sentido, começam a ocorrer
morosidades, desconhecimento do perfil
de compra e dos anseios dos clientes,
atendimento "massificado"
e nada personalizado. O cliente acaba
sendo transformado em um simples número
de cheque emitido, entre outras facetas
desagradáveis e que comprovam
a semelhança com a conceituação
do velho estilo fordista em relação
aos seus clientes.
Neste cenário, empresas locais
que atuam de maneira focada, descomplicada
e, fundamentalmente, preocupadas com
um bom atendimento e ampliação
do conhecimento acerca dos hábitos
e preferências dos seus clientes
acabam conquistando pontos valiosos
na mente dos consumidores. Estas empresas
atuam, basicamente, na personalização
ao invés da massificação.
Neste sentido, criam serviços
e agregam valores efetivos para os seus
clientes, gerando desta forma, importantes
diferenciais, que dificultam a atuação
e invasão das grandes cadeias.
Além destes aspectos, quanto
maior o nível de concentração
de um mercado, menores são as
opções ofertadas, os produtos
e/ou serviços acabam tornando-se
similares. A diferença é
que os clientes, numa escala cada vez
maior, desejam personificação,
desejam que suas necessidades sejam
atendidas e não obrigatoriamente
a necessidade de um cliente é
igual ou similar à de outro.
Deste modo, acredito, a diferenciação
e o foco de atuação auxiliam
na ampliação das perspectivas
de futuro das redes regionais.
Qual é a receita para continuar
resistindo?
Como escrevi anteriormente, na minha
opinião, a receita da sobrevivência
e/ou a receita da expansão dessas
cadeias varejistas, passam, sem medo
de errar, necessariamente, pela inquietante
procura da diferenciação
nos serviços, no conhecimento
cada vez maior dos hábitos dos
seus clientes e da ação
focada em determinados produtos/serviços.
Deste modo, as empresas cativarão
muito mais os clientes para continuarem
consumindo em suas lojas. Como disse,
cliente verdadeiramente satisfeito,
é um cliente leal.
Procurar entender bem os seus clientes
e oferecer o que eles precisam, com
preços acessíveis, quando
precisam e onde desejam, são
componentes de uma equação
bem sucedida no caminho do êxito
empresarial no setor varejista.
Mais uma vez, na medida em que as organizações
crescem e, normalmente, perdem este
objetivo e compromisso com os seus clientes,
elas acabam abrindo espaços importantes
para outros concorrentes. Uma vez "bem"
preenchidos estes espaços, tornam-se
diferenciais de difícil recuperação
para as grandes cadeias varejistas.
Como saber quando permanecer rede
regional e quando expandir para o país?
Tudo depende da estratégia traçada.
Quando uma rede regional adquire um
tamanho capaz de fazê-la poder
pensar na mudança de sua estratégia
bem como quando o mercado mostra-se
favorável para a sua expansão,
são variáveis e perspectivas
que motivam a transformação
de uma rede regional para uma cadeia
nacional. Neste momento, a briga com
a concorrência também mudará
substancialmente.
Outras variáveis da conjuntura
interna da organização
devem ser avaliadas, entre elas, poderia
citar a sua capacidade de financiar
a sua expansão (nível
de capitalização e/ou
endividamento), necessidade de sócios
ou não, gestão interna,
digo, os seus gestores estão
preparados? A gestão de suas
empresas mostra-se competitiva em relação
às outras organizações?
Quais serão os diferenciais oferecidos
para o mercado, uma vez a sua empresa
assumindo nova escala de atuação?
Qual o verdadeiro objetivo a ser alcançado
uma vez atuando em escala nacional?
Enfim, variáveis internas da
organização (gestão,
estratégias, capacitação,
etc.) bem como externas (cenários
econômicos, concorrência,
etc.) são ponderações
importantíssimas na decisão
de ganhar escala nacional ou não.
Sendo que, é preciso ter em mente
que tornar-se uma cadeia nacional para
oferecer as mesmas coisas que as grandes
já oferecem, é como chover
no molhado. As empresas precisam dizer
ao que vieram, isto é, precisam
demonstrar os seus diferenciais e provocar
uma verdadeira reviravolta no mercado
de atuação.
Qual é a importância
destas redes para o mercado de varejo
no Brasil?
Eu diria que a importância está
relacionada ao incremento da concorrência
pela existência de players fortes
nos diversos mercados. Com a existência
de concorrentes competentes, a quantidade
de ofertas de bens e serviços
é naturalmente ampliada, o que
é muito para o consumidor final.
Se já não bastasse este
fato, a presença destas cadeias
locais em determinadas regiões
é a solução desejada
quando se objetiva levar produtos e
serviços para locais que não
seriam "dignos" da oferta
pelas grandes cadeias nacionais que,
muitas vezes, não vislumbram
retornos financeiros que justifiquem
os investimentos necessários.
O Brasil precisa, e muito, das iniciativas
e de fortes cadeias regionais espalhadas
pelo seu território, somente
assim, as ofertas de produtos e serviços
poderão auxiliar o desenvolvimento
de locais jamais pensados.
Enfim, as redes regionais são
de suma importância para um País
em fase de desenvolvimento, por ampliar
a oferta de empregos, por participar
ativamente das comunidades que estão
inseridos, por proporcionar a oferta
de produtos e serviços a populações
situadas em locais não tão
próximos aos grandes centros
urbanos, por incentivar o assentamento
de pessoas em cidades de médio
porte entre vários outros fatores.
|